Opinião

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.° Ciclo, escreve, tem 17 livros publicados. Tem um programa de rádio sobre literatura na Rádio Antena Vareira. Promotor de eventos culturais no Museu de Ovar. Criou a editora e livraria Doninha Ternurenta em Ovar

A espuma educativa II

A cada novo ano lectivo, novos pensamentos me invadem a mente e me fazem escalar uma sombra de dúvidas, sem que possa desvendar um fio brilhante de sol. Aliás, cada novo ano lectivo que se inicia assume contornos de desconfiança, sobre o desconhecido e o imprevisível. Sabemos que é o tempo de reencontros e de regressos com energias restauradas, mas na intimidade de cada agente escolar há sempre um desconforto. Claro que as posições variam conforme os ângulos de visão dos intervenientes. Como se fosse impossível todos observarem sob o mesmo ponto de vista. Mas não deveria ser assim com a Educação? Mas interessa a alguém que haja dois lados da barricada no contexto escolar?

A forma superficial como opinamos sobre esta temática não deixa de ser poluente na construção de um argumento sério. Por norma, os governantes aprendem a perceber de leis, mas nada percebem da sua aplicação no terreno. Os pais e encarregados de educação, por mais próximos que estejam da escola, assumem quase sempre uma opinião mais emocional (julgando-a racional), empírica, despojada de um conhecimento profundo sobre os assuntos em causa (obviamente que não contesto a liberdade de expressão, o problema é que ela chega coberta de imprecisões e ausente de razoabilidade). Os directores e as suas equipas situam-se num limbo difícil de definir, ora têm de cumprir orientações, ora têm de contrariar ordens que vão contra os seus conceitos de ética (e poderia aqui elencar alguns acontecimentos, porque quem está nos cadeirões do poder, são pessoas que, muitas vezes, desconhecem as realidades escolares). Por fim, os professores e os alunos, no final de uma lista de prioridades tantas vezes invertida.

O sistema educativo existe para servir os interesses da educação das crianças, existe para servir as crianças, existe para formar cada criança. Temos consciência que devemos ter professores motivados e competentes, como temos de ter chefias com perfis e governantes lúcidos, conhecedores e sensíveis às realidades (também às diferentes realidades). Neste conjunto de actores da cena educativa, temos de construir um sistema em que o espírito de missão esteja presente, um sistema justo e prometedor, que a todos integre, sem qualquer tipo de exclusão.

A escola ainda não é um local perfeito, mas também não é o local menos perfeito. A propósito do estudo da OCDE que colocou os professores portugueses numa inverosímil ideia de que são pagos a peso de ouro. Não querendo aqui discutir o estudo, até porque há sempre uma tendência para desvirtuar a discussão partindo de médias que não confrontam as condições a vários níveis, interessa perceber, a partir de dentro, o que podemos discutir que não tenha ainda sido discutido. Ora, chegaremos à fácil conclusão de que tudo é discutido sobre a educação.

“Temos consciência que devemos ter professores motivados e competentes, como temos de ter chefias com perfis e governantes lúcidos, conhecedores e sensíveis às realidades (também às diferentes realidades)”

O problema está claramente na qualidade dessas discussões. Temos estudiosos académicos que se debruçam sobre as leis e que conhecem a realidade das escolas, são chamados para acompanharem os processos de reforma, mas fica sempre algo que não foi aprofundado. Mas como se vive verdadeiramente numa escola? Não falo de escolas que servem como modelos, que têm novos projectos, em condições sociais vantajosas. Falo das outras, das outras. Algum jornalista se deu ao trabalho de ir para uma escola (também não tem de ser TEIP) e passar lá uma semana para perceber o que lá acontece? Tento explicar que falar do sistema educativo português vem muito além da opinião, que pode até estar emocionalmente enviesada, sobre este ou aquele exemplo, que pode não representar o todo.
Partir para o debate também não pode ser com a utilização de um bom exemplo ( por exemplo, as escolas privadas) e afirmar que tudo o que está à volta é manifestamente mau (as escolas públicas). Mas isso acontece com frequência.

Há escolas que estão a fazer o seu caminho, com muito empenho, com espírito de missão e que apenas são reconhecidas nas suas comunidades. Se eu só conheço um exemplo, por que devo eu assumir que mais nada presta? O estudo do sistema educativo português carece de maior profundidade de opinião. Há factos que podem estar a ser influenciados por milhares de factores.

Voltemos ao regresso à escola. Voltemos, nós, ao início. A comunicação social anunciou novas greves dos professores. Mas não vamos por aí, lá chegaremos também, ainda não é neste texto. As notícias falaram dos pesos nas mochilas, nos manuais escolares, na falta de auxiliares, enfim, temas que todos os anos ouvimos. A verdade é que podemos legislar sobre estas temáticas, mas tudo continua na mesma. A verdade é que o rumo das coisas pode ser tão natural, que a culpa da permanência do que se pretende mudar pode ser de todos. Explico, não somos todos coniventes a não concretização das mudanças? A quem interessa que não se mude?

Nestas questões dos estudos, das estatísticas, das médias, das comparações, é muito usual, porque vivemos num mundo globalizado, e não estamos imunes às boas práticas de outros países, seguir uma tendência para importar modelos educativos que obtiveram grande sucesso. Portugal replicou no seu sistema educativo muitas ideias aplicadas pela Finlândia ou pelo Chile. Acontece que, mais no caso da Finlândia, as ideias aplicadas não estavam ajustadas às nossas realidades, ou melhor, foram aplicadas as que eram mais exequíveis. Muitas das excelentes medidas finlandesas não tocaram em solo português. E porquê? Porque isso implicava custos. É isso mesmo, custos maiores para o estado. E a Finlândia não é Portugal. Por incrível que pareça, essa medidas visaram claramente a contenção de custos. E a Finlândia é exemplo porque investiu com grande afinco no seu sistema educativo. Parece contraditório? Não parece, é mesmo.

A Finlândia ainda hoje investe na educação das suas crianças. O Japão está a derrapar nas suas contas. Mas o que faz o Japão? Investe precisamente na educação das suas crianças, porque acredita nesse investimento. E fá-lo porque não é apenas uma questão de políticas educativas, é também um reforço das políticas sociais. O mesmo se passa na Finlândia. E nós, nesta matéria, ainda não aprendemos nada, porque estivemos mais preocupados em fazer estradas e construções megalómanas, estádios, mais estádios, para fazer lembrar que fomos grandes. Vão agora lembrar, mas, e então a Parque Escolar? Era isso, começar pelo telhado? Pois, os finlandeses dão a receita, reduzem o número de horas de aula (vão confirmar os números, antes de qualquer afirmação) e limitam os trabalhos de casa e a quantidade de exames, e as escolas não têm paredes. É verdade, as divisões são transparentes e o plano aberto permite uma maior aproximação dos diversos grupos de aprendizagem.

“E nós, nesta matéria, ainda não aprendemos nada, porque estivemos mais preocupados em fazer estradas e construções megalómanas, estádios, mais estádios, para fazer lembrar que fomos grandes”

Mas há mais, por cá estas medidas seriam apelidadas de facilitismo. O país investe na Educação, com inúmeras políticas sociais. Estes planos abertos têm uma razão de ser, são os alunos que escolhem o seu ambiente de sala de aula, o seu plano de estudos, a sua cultura de trabalho e de método. O caminho a seguir será este, sem dúvida alguma. Estamos a demorar mais, porque o país ainda continua agarrado à centralização e ao centralismo. Não podemos afirmar que a culpa é dos professores, que estes são avessos à mudança. A sua maioria aposta na sua formação e enquadra-se com novas formas de ensinar.

Agora atentemos no seguinte, no que diz respeito às políticas sociais, as escolas finlandesas garantem serviços de atendimento médico e odontológico de forma gratuita a todos os alunos (não vamos discutir aqui o conceito de justiça relativamente a ricos e pobres); o material escolar é gratuito e há equipas de pedagogos e psicólogos em todas as escolas de todos os níveis, que acompanham cada criança. Não existem, para tudo isto, e muito mais, mensalidades escolares. A Finlândia concede chorudas licenças de maternidade/paternidade, as creches são subsidiadas e a sua frequência é gratuita, e o país tem uma rede de protecção social que chega a todos os cidadãos. O país preocupa-se com a educação e a saúde, garantindo também moradia para todos.

Quando acusamos a nossa escola pública de ser má, que não é integradora, que não cumpre a sua missão, eu pergunto: pode a escola pública resolver um problema, por milagres, quando o nosso país nunca se preocupou em resolvê-lo? Fica no ar a questão para novas reflexões.

Nota: Nenhum estudo pode absolver a escola do incumprimento das suas responsabilidades.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico. 


Opinião - Novembro 10, 2018

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