Rui Paixão vai começar a trabalhar com o Cirque du Soleil. Em novembro, viaja para a China

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Rui Paixão vai começar a trabalhar com o Cirque du Soleil, uma das companhias de circo mais reputadas e reconhecidas do mundo, a maior companhia circense do planeta. Em novembro, o palhaço de Santa Maria da Feira, que em 2015 estreou o seu projeto “Cão à Chuva” no Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira, viajará para a China para preparar o próximo espetáculo do Cirque du Soleil, com estreia prevista para o próximo ano.

Rui Paixão, de 23 anos, vai criar uma nova personagem para a companhia. Três anos depois da audição feita em Las Vegas, o único palhaço português da companhia integrará o elenco do novo espectáculo como protagonista. Antes de partir para a China, já a 6 de setembro, Rui Paixão participa em “Aro”, uma criação artística dirigida por Jorge Lix no âmbito da exposição “O circo de Fernand Legêr”. Estará no Norte Shopping, pelas 22h00.

“Ser palhaço é a minha anestesia”

Rui Paixão é o único palhaço português na lista da reputada companhia Cirque du Soleil. Em 2015, foi considerado o artista revelação do Imaginarius e o artista emergente no Circada – Festival de Circo de Sevilha. Recordamos a entrevista de Rui Paixão ao www.donline.pt no início deste ano.

 

Aos 22 anos, é um palhaço sujo, pobre, de cabelo verde e sem nariz vermelho. Esta personagem é uma metáfora do desleixo social e cultural?
Para além de uma metáfora para um estado social podre com má aparência é também um reflexo e uma provocação. O desleixo social atual é disfarçado com a procura do belo e do perfume, o palhaço de cabelo verde é o contrário… é o ser mal cheiroso e feio à procura do belo no Homem.

Ser palhaço é um modo de vida, uma maneira de estar, uma forma de ser, uma vontade de virar o mundo do avesso?
Ser palhaço não tem para mim o valor de uma profissão ou de uma religião. É a fórmula que encontrei que mais se aproximou da forma como quero interagir com o mundo e procurar encontrar as respostas para questões que suspeito morrer um dia sem as solucionar. Ser palhaço é a minha anestesia e também o meu contributo para caotizar um pouco mais tudo isto.

A gargalhada é o melhor prémio para um palhaço ou a indiferença também pode ter o seu encanto?
Todas as reações à provocação são matéria para desenvolver o que ando à procura. Se a indiferença aparece é porque alguma coisa não está a funcionar para estimular e provocar no outro o que desejo… inverto os papéis e estimulo-me para repensar o meu trabalho, investigar e tentar novamente.

“Rio-me facilmente da não artificialidade, um palhaço pobre é o máximo dessa ideia”

Um palhaço pobre tem mais piada do que um palhaço rico?
A ideia de um palhaço pobre agrada-me mais e comove-me. Esta imagem é assombrosa porque ninguém sonha não ter nada na vida e ainda ser alvo de chacota e escárnio. Parecem seres isolados das vontades humanas e que, não querendo nada da vida, já têm tudo. Rio-me facilmente da não artificialidade, um palhaço pobre é o máximo dessa ideia.

O corpo é que paga quando se constroem espetáculos sem frases, sem diálogos, sem conversas, sem textos?
O corpo é a minha ferramenta de trabalho. Paga caro pelo uso excessivo que lhe dou e principalmente por alguma quantidade de loucura que receio vir a pagar se chegar a velhinho. No entanto, entusiasma-me testar e pensar sobre estes limites da matéria que me liga ao mundo e de formas mais abstratas de comunicar. Espero pelas consequências um dia mais tarde.

Os dias passam mais devagar quando se espera uma chamada para fazer parte de um espetáculo do Cirque du Soleil?
Passam com a mesma demora. Acontece que ficam mais recheados e mais motivados. Não vivo obcecado com essa chamada: “O que for, quando for, é que será o que é” – Fernando Pessoa.

Os sonhos comandam a vida ou a vida comanda os sonhos?
Parece-me um misto dos dois. Por vezes, sonhamos para a vida se mover e às vezes movemo-nos para encontrar o sonho, são as duas válidas. Eu acredito mais na surpresa, no ser surpreendido. Independentemente do que comanda a vida…

“Santa Maria da Feira é um terreno fértil para palhaços, tem boa terra, boa água, bom estrume, boas sementes…”

Os políticos já perceberam o papel da cultura ou assobiam para o lado?
Grande parte da classe política não privilegia a cultura. É uma necessidade de segundo plano que complementa as leis de estupidificação em massa ligadas à economia e à educação em série digna de padarias com pães quentinhos a sair a toda a hora. (Aumenta a estatística e mais facilmente são comidos). Sinto que em Portugal cada vez menos importa a identidade cultural e receio pelo futuro.

Santa Maria da Feira, onde tudo começou, é um terreno fértil para os palhaços desta vida?
Santa Maria da Feira é um terreno fértil para palhaços, tem boa terra, boa água, bom estrume, boas sementes… Sinto que devemos apostar mais na profissionalização dos agricultores para que as ideias melhorem e cresçam com fortes perspetivas de futuro e saudáveis para os dias atuais.

Vivemos num mundo que dá para rir, para chorar, ou as duas coisas ao mesmo tempo?
O Homem ainda não encontrou uma forma plena de interagir com o mundo, com a sua própria existência em relação a tudo. Questões metafisicas, sentimentais, banais… será sempre este um mundo para rir e chorar. E que bom que isso é, mantém-nos ocupados.


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- Setembro 2, 2018

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