Opinião

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.° Ciclo, escreve, tem 17 livros publicados. Tem um programa de rádio sobre literatura na Rádio Antena Vareira. Promotor de eventos culturais no Museu de Ovar. Criou a editora e livraria Doninha Ternurenta em Ovar.

A espuma educativa I

Por motivos óbvios, a temática da educação interessa-me bastante. Podia afirmar que tal acontecia por ser pai e encarregado de educação. Isso bastava-me, daí que seja legítimo haver em cada cidadão uma opinião, mesmo que demasiado técnica e sobre questões profissionais, já lá vamos. Mas há mais para lá desse importante pormenor. Também sou professor! Também podia levantar essa bandeira, de o reiterar em voz alta, do orgulho e da vocação (outro ponto que merece discussão), mas não o faço.

Nestes tempos conturbados, em que toda uma classe é atacada, atrevo-me a contrariar a opinião pública. Não sinto essa animosidade. Em 20 anos de carreira sempre observei grande reconhecimento e respeito pelos professores por parte da população. Talvez se perguntem agora, onde fui buscar eu esta ideia? Estou convicto do que aqui afirmo. Normalmente, por tradicional comportamento, as críticas conseguem soar mais alto que um elogio. Os elogios ficam em círculo fechado. Há uma tendência clara, na sociedade actual, de ampliar a polémica. Esta reivindicação dos professores pode parecer ridícula, injusta e desajustada. Mas julgo ser mais importante desmistificar o que corre de argumentos, de um lado, e do outro.

“Há muita matéria para debater, com bom senso, com propriedade, e, acima de tudo, numa reflexão aturada sobre a educação. E isso é o que tem faltado”

Na minha opinião, é mais um diálogo em que os interlocutores estão de costas voltadas, note-se patronato e empregados. Aqui é importante debater o papel de todos. O que se passa nas escolas, hoje em dia, só os profissionais que lá trabalham é que podem comprovar. Mas perante as dúvidas sou defensor da abertura à comunidade, para que se perceba de uma por todas as condições de trabalho existentes, que afectam também os alunos, as suas aprendizagens e o conforto associado aos espaços físicos. Andamos muito preocupados com reivindicações justas, num país que adora nivelar por baixo, que são muito importantes para o saudável desempenho de qualquer profissional. Sei que com isto vêm argumentos de sobra para rebater esta opinião. Mas também não faltam argumentos para rebater este rebater. Portanto, há muita matéria para debater, com bom senso, com propriedade, e, acima de tudo, numa reflexão aturada sobre a educação. E isso é o que tem faltado.

Não pretendo seguir aqui uma veia corporativista, gosto de distanciamento, e só assim conseguimos ver mais longe. Uma reforma educativa tem de ser feita obrigatoriamente na presença dos seus principais intervenientes, os professores. Uma reforma que se pretenda justa e equilibrada, doa a quem doer, é do interesse de todos, contando com todos. Como é dito por aí, que os professores não querem ser avaliados. Puro disparate! Os professores não podem é ser avaliados segundo critérios completamente desfasados do que se pretende, porque em vez de beneficiar, vai prejudicar.

Imaginemos, pelo sucesso escolar dos alunos, conseguimos comparar a excelência de um professor que tem uma turma de uma escola de intervenção prioritária com a de um professor que dá aulas numa escola de uma zona chique de Lisboa? Ora, um bom professor será aquele que consegue fazer muito com pouco, mas em que medida é que isto é quantificável? Há muitos mais exemplos, serão tratados, no devido tempo. Contudo, e pode ferir quem acreditar no contrário, os professores são avaliados. A reforma de Maria de Lurdes Rodrigues, tida por alguns opinantes, como a melhor ministra da educação de todos os tempos, eu atrevo-me a dizer que terá sido a pior, não avançou porque teve a oposição feroz dos professores.

“Uma reforma educativa tem de ser feita obrigatoriamente na presença dos seus principais intervenientes, os professores. Uma reforma que se pretenda justa e equilibrada, doa a quem doer, é do interesse de todos, contando com todos”

Ora, tanto se falou no corporativismo de toda uma classe, que se uniu para defender os seus interesses. Aqui, tantas vezes também apelidada de resistência à mudança, esqueceram-se do que é essencial, em que bases se sustentou essa reforma? Tinha premissas boas? Poderia ter, mas na sua globalidade era manifestamente má. Desde logo porque se baseou em critérios de países distintos como a Finlândia e o Chile, em condições sociais completamente distintas, para não falar nas financeiras. E transformou-se ainda numa proposta que foi assumida como perfeita, estanque e sem qualquer margem para flexibilidades. Desde as cotas na transição de escalões à forma de estruturação de aulas observadas observou-se que a avaliação naquela reforma tinha mais de subjectividade que de objectividade. A mensagem que passou, como ainda passa, cria um elo com a sustentabilidade financeira, mas não se preocupa minimamente com o efeito de procura para premiar os melhores.

Se as ditas progressões automáticas são criticadas, podemos assumir que serão os professores mais velhos os mais competentes para avaliar os mais novos? Claro que o problema nem residia aqui, e defendo que a experiência numa profissão tão específica deve ser levada em conta, pretende-se apenas alertar para as questões muito técnicas que devem ser debatidas com o máximo rigor e não porque sim ou porque não. O problema está a montante. E talvez aqui resida a verdadeira essência do problema. A educação, primeiramente, é vista como uma despesa e não como um investimento. A escola é vista como uma empresa e não como uma incubadora (termo tão na moda) de competentes profissionais.

Uma reforma, quando participada por todos os interessados, indo de encontro ao interesse comum, os alunos, mas salvaguardando o estatuto de todos os intervenientes, não pode nunca descurar, ainda assim, a permanente motivação dos profissionais visados. E algo tem de mudar, numa sociedade que muda a cada segundo, em que cada geração chega cada vez mais bem preparada, mas menos autónoma e independente. Os professores têm sido a garantia da manutenção do sistema. São uma classe muito bem formada. Vejamos, segundo um estudo da OCDE, o desempenho dos alunos portugueses nos testes PISA foi dos que mais melhorou. Outra, os salários dos professores portugueses foram os que mais diminuíram entre 2005 e 2015, 10%, isto num comparativo entre os países da OCDE. Só superados pelos da Grécia, que diminuíram 20%. Mas o desempenho dos alunos gregos também diminuiu. Uma curiosidade, portanto, por que comparamos tanto a educação portuguesa nos seus piores indicadores, mas nunca o fazemos nos seus melhores indicadores?

“E algo tem de mudar, numa sociedade que muda a cada segundo, em que cada geração chega cada vez mais bem preparada, mas menos autónoma e independente. Os professores têm sido a garantia da manutenção do sistema”

Lembremo-nos também, melhoraram os indicadores, mas também aumentou o número de alunos por turma. E esta medida especialmente economicista, e com estas medidas ninguém se preocupa, não é propiciadora de melhores aprendizagens. Mas as aprendizagens melhoraram, ainda assim. Melhoraram, não significa que estamos no éter, mas se é para comparar, então comparemos. Uma verdade, os professores estão entre os que mais tempo demoram a atingir o topo da carreira, 34 anos, num comparativo entre 29 países europeus. Outra verdade, os professores em início de carreira ganham pouco, atendendo às suas habilitações profissionais. Uma boa intenção, reduzir o número de escalões e aproximá-los.

O que interessa para o debate, que pretendo efectuar com este texto e outros que se lhe vão seguir, assumir a importância de uma reforma educativa que exija dos professores, mas que os trate com respeito, sem cotas, que na realidade premeie os melhores, e que permita que todos os melhores sejam premiados. Isto sim, será valorizar a profissão e criar um sistema de excelência. Do mesmo modo, deve o estado tratar os seus funcionários com equidade e equilíbrio. Outro mito que tem decorrido da opinião pública, o mito dos privilégios. Há condições concedidas que estão relacionadas com as funções que lhes estão inerentes. Deveríamos primar pelo nivelamento positivo, que significa reivindicar condições iguais para todos, não exigir que se retire porque nem todos usufruem. Péssimo argumento, típico de um pensamento saloio e de inveja. Por isso, as nossas condições são mínimas e pouco proveitosas, não é este o pensamento em países pequenos como o nosso, que têm grande estabilidade financeira, Dinamarca, Holanda e Suíça, à cabeça.

“Outro mito que tem decorrido da opinião pública, o mito dos privilégios. Há condições concedidas que estão relacionadas com as funções que lhes estão inerentes”

A temática, discutida com rigor, olhando os factos e os dados, não para apontar o dedo, mas sim para reflectir e tentar melhorar. A reforma educativa é obrigatória. Não para ser um conjunto de medidas avulsas, para curto prazo, sem que se dê tempo para uma verdadeira efetivação das mesmas. Não para mudar de conteúdos curriculares e de metas de aprendizagem a cada governo que chega. Não para mudar os modelos de gestão escolar de sete em sete anos, ou menos, criando embaraços permanentes às comunidades escolares na sua adaptação a mais um chorrilho de leis, de despachos e circulares, que circulam, que partem e voltam, muitas vezes com a cosmética de um nome, que muda, que pouco altera, mas que é suficiente para alterar um número infindável de documentos.

Temos assunto para muito tempo. Quando li um livro que fazia a apologia do ensino particular e cooperativo, pensei para mim que em tantos anos ainda não tinha visto um livro assim sobre o ensino público, que o elogiasse, que o valorizasse, ou pelo menos, que não o olhasse como um sistema sempre falível. Será que seríamos capazes de formar tantas pessoas competentes? E fiquei com a certeza, até porque Czesław Miłosz, escritor polaco laureado com o Prémio Nobel da Literatura de 1980, diz-nos que o verdadeiro inimigo do homem é a generalização, que este tem sido um dos maiores perigos, o de tomar a parte pelo todo, que este dividir para reinar jamais terá sucesso nos indicadores educativos.

 

 

 


Opinião - Julho 20, 2018

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