Opinião

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.° Ciclo, escreve, tem 17 livros publicados. Tem um programa de rádio sobre literatura na Rádio Antena Vareira. Promotor de eventos culturais no Museu de Ovar. Criou a editora e livraria Doninha Ternurenta em Ovar.

A espuma cultural III

Importa regressar aos conceitos de identidade e cultura, o que cada um representa na sociedade, tentando perceber se têm relação entre si e se eles se cruzam também com outros conceitos, uma matéria que interessa dissecar, não de forma exaustiva, mas para que seja possível perceber esta vastidão que nos cobre os pensamentos. Mas este texto dirige-se aos dados da Pordata e ao Eurobarómetro da Comissão Europeia (fizemos a opção de usar os dados relativos a 2013), tentando com eles elaborar uma ideia da evolução de algumas áreas culturais no seio das comunidades portuguesa. Portanto, numa lógica de grupo, conseguimos perceber as escolhas pessoais, mas que indiciam um caminho colectivo, sinais dos tempos e das diferentes gerações que se vão desenvolvendo. Aqui podemos tocar nessa matéria que se relaciona com a questão da identidade. Podemos afirmar que uma determinada comunidade altera os seus padrões culturais ao longo de 100 ou mesmo de 50 anos?

Atentemos nos dados, Portugal apresenta-se ao nível da literacia e da cultura, como em tantos outros indicadores, na cauda da Europa. São os dados que o comprovam. À pergunta que tenta perceber quantas vezes nos últimos 12 meses foi um cidadão europeu (incluindo o português) assistir a uma peça de teatro, ao ballet, ver um filme no cinema, ler um livro, visitar um museu, um monumento ou uma biblioteca, em números comparativos, junta-se uma resposta que nos permite perceber que o português fica em todos os pontos abaixo da percentagem europeia (Eurobarómetro de 2013). Talvez haja o consolo de que nos comparativos a 10 anos a percentagem europeia cai em quase todos pontos (sobe apenas nas idas ao cinema). Isto permite-nos entender que provavelmente, à escala europeia, as novas gerações, os mais jovens, poderão estar a afastar-se, o que não acontece apenas em Portugal. Este primeiro mito pode desde já cair por si.

“Mas podemos perguntar, mas temos programas sobre cultura em Portugal? Que investimento fazem os meios de comunicação sobre o tema? Não há públicos para estes programas? São minoritários?”

Como abordámos num outro texto, Gilles Lipovetsky fala-nos da globalização numa vertente planetária, da qual nenhuma sociedade conseguirá fugir. Contudo, devemos estar preocupados, porque os números portugueses são bastante aterradores. A questão não deve estar centrada numa forma de estancar a queda, mas sim de inverter essa descida, de fazer crescer estes números para o lado positivo. Chegamos, pois, à questão do investimento, e aqui a Pordata ajuda-nos a compreender a falta de investimento nesta área, desolador e incompreensível. Por exemplo, na pergunta sobre quantas vezes viu ou ouviu um programa sobre cultura na rádio ou televisão a diferença entre a resposta dos portugueses e dos restantes europeus é de 9%.

Mas podemos perguntar, mas temos programas sobre cultura em Portugal? Que investimento fazem os meios de comunicação sobre o tema? Não há públicos para estes programas? São minoritários? As audiências dos eternos programas sobre futebol são bem maiores, certo, mas o que se pode produzir quando os seus intervenientes prescindem da racionalidade, argumentam aos berros, desfocados da razão?

“Basta verificar a quantidade de salas que foram fechando ao longo dos anos para dar lugar a espaços das mais diversas actividades. No ano de 2017 foram exibidas 18.484 de filmes portugueses (dados da Pordata). Mas em 1979, tivemos 39.792 sessões exibidas em Portugal”

Vejamos, quanto ao cinema, que se tem ajustado ao longo das décadas aos novos conceitos sociais, confirma-se que ainda assim tem perdido preponderância na sociedade. Não vamos tentar perceber aqui os motivos, embora eles estejam bem à vista. Basta verificar a quantidade de salas que foram fechando ao longo dos anos para dar lugar a espaços das mais diversas actividades. No ano de 2017 foram exibidas 18.484 de filmes portugueses (dados da Pordata). Mas em 1979, tivemos 39.792 sessões exibidas em Portugal. É amplamente surpreendente e preocupante. Não vamos comparar com os filmes produzidos nos EUA, porque não há comparação possível. Entendemos ser este um dos efeitos da globalização e da massificação de determinadas actividades.

Em Ovar (e é um exemplo entre tantos outros) existe apenas uma sala de cinema, que passa bons filmes, que vai sobrevivendo com muita dificuldade. Mas longe vão os tempos para as longas filas no velho Cine-Teatro, sala única também, com sessões quase sempre esgotadas. Estas reflexões levam-nos, como bem sabemos, para variadas discussões, como afirmamos no início, para áreas que se cruzam, que se ligam, e que se influenciam. Sim, é verdade, havia mais espectadores de cinema em 1960 que em 2016. Há a internet, o netflix, bem como outras formas de desvio, mas o cinema não desapareceu.

O cinema continua a gerar milhões de dólares em todo o mundo. E então, estamos assim tão mal? Os números dizem que sim. Os franceses são o povo europeu que mais frequenta as salas de cinema. Em 2015, 29.3% afirmam que foram ao cinema pelo menos quatro vezes, mais do dobro que em Portugal (12,7%). Neste contexto, ainda assim, são os filmes de animação que dão enorme contributo para esta percentagem.

“É importante referir a capacidade dos portugueses de produzir em contexto alternativo. Temos talento de sobra nas diversas artes culturais”

Outro enquadramento destes números que encontramos, de que o Eurobarómetro nos dá conta, relaciona-se com a questão financeira. O cidadão português justifica-se com o elevado preços dos bilhetes para o cinema, espectáculos e entradas nos museus. Na verdade, também neste campo estamos muito distantes da norma europeia. Não somos muito sensíveis para a concessão de bilhetes familiares, para os bons descontos de grupos, para preços reduzidos que incentivem à procura. É muito fácil encontrar em bons museus de outros países europeus entradas com valor mais baixo que em alguns dos bons museus nacionais. A começar pela política de muitos países da entrada gratuita, mas essas são questões que podemos abordar mais tarde.

É importante referir a capacidade dos portugueses de produzir em contexto alternativo. Temos talento de sobra nas diversas artes culturais. E a persistência dos diversos intervenientes conseguem colocar o nosso país em destaque no contexto europeu. Felizmente que o cinema na Europa tem vindo a crescer, num momento em que o Observatório Europeu do Cinema classifica de estrondosa a quantidade de produções feitas pelos diversos países. São mais de 18 mil filmes produzidos entre 2007 e 2016. Mais uma discrepância entre a produção e a assistência, ao nível do que encontramos na literacia, pela diminuição de leitores em contraste com as publicações.

Outra questão do Eurobarómetro remete-nos para a participação cultural como intervenientes. Desde a dança, à pintura, à escrita, à criação de blogues, à prática de instrumento musical ou à representação, estamos sempre abaixo da média europeia. A desvalorização das artes e da cultura em geral leva a este relaxamento na participação cultural. Não sendo motivo único, compete-nos inverter esta tendência que se acentua há décadas. E esta inversão só poderá acontecer com políticas de investimento, assertivas, objectivas, acreditando na importância da cultura para o conhecimento e o desenvolvimento de uma sociedade. O assunto, como refere o ditado, tem pano para mangas, e pretendemos continuar a analisar os dados da Pordata, assim como trazer os conceitos que nos possam ajudar numa reflexão mais concreta e genuína.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico. 

 


Opinião - Junho 10, 2018

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