Diálogos Improváveis

Alexandra de Pinho: “A criação é alimentada por um estado de desassossego e inquietude”

Alexandra de Pinho, artista plástica, trabalha no ateliê em Santa Maria da Feira. A sua linguagem singular deriva da expressividade, da combinação com os materiais e técnicas. Licenciada em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

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É a arte que imita a vida ou é a vida que imita a arte?
A vida é a maior das preciosidades. Pela sua irrepetibilidade, dá-nos as maiores lições. Frequentemente, só compreendemos a importância das coisas quando já é demasiado tarde, o que nos deixa vulneráveis… Mas através da arte é sempre possível equacionar novas possibilidades quer pela desconstrução de formatos, muitas das vezes considerados inabaláveis, como pelo reforço de valências essenciais mais fragilizadas. Ambas obrigam a uma aprendizagem e questionamento contínuo. Seguramente caminham lado a lado e alimentam-se uma da outra.

A arte é um caminho em linha reta ou um trajeto com lombas, sinais de perigo, semáforos intermitentes, e alguns sustos?
É sinuosa, sem dúvida. Julgo que também não teria piada nenhuma se não fossemos desafiados e tudo fosse demasiado previsível.

O artista é um ser eternamente insatisfeito por natureza e por convicção?
Certamente. A criação é alimentada sobretudo por um estado de desassossego e inquietude.

“A técnica será sempre apenas um meio, se o enquadramento conceptual da representação não tiver sido activado. A obra de arte tem que ser um discurso crítico”

Coser tecidos, bordados e rendas, pedaços de roupa e alças de soutien, como fazes nas tuas telas, é transportar histórias para a arte ou algo mais do que isso?
Sim. É transportar um universo de histórias, gerir um mundo sensorial a par da simbologia representada. Só assim estarão criadas as condições para que se possa passar uma mensagem, sublinhar a preciosidade de algo, contaminar os outros com as nossas preocupações.

A procura de texturas, de técnicas, de cores, de materiais, é o motor da arte? Ou é a inspiração que fala sempre mais alto?
Os materiais que utilizo, a procura pela fisicalidade do desenho a par dos jogos cromáticos, são meios formais necessários para a concretização da obra. Têm que fazer sentido e têm um papel preponderante em qualquer processo criativo. Mas dissociados de uma pertinência crítica e ou de um reforço contemplativo teriam uma validade puramente formal. A técnica será sempre apenas um meio, se o enquadramento conceptual da representação não tiver sido activado. A obra de arte tem que ser um discurso crítico. No meu caso, a inspiração traduz-se mais por um olhar atento, reveste-se de preocupações, de um reequacionamento de novas possibilidades e um trabalho contínuo de pesquisa.

“Estimular os sentidos, promover o contacto com as várias expressões artistas, reforçar o poder da imaginação, todas estas são formas que contribuem para o desenvolvimento de um sentido crítico e da literacia visual”

Qual o momento, se é que existe, em que se decide que uma obra de arte está terminada? Há aquele clique?
Quando tenho todo o tempo do mundo e não há prazos para cumprir, é um processo quase natural. Chego a determinada altura que reconheço que já dei tudo o que tinha a dar. Quando há imposições externas de prazos, é mais penoso… mas acaba-se na mesma.

Aprende-se ou apreende-se arte?
As duas formas, sem dúvida.

Como se ensina arte? Há testes com questionários de cruzinhas?
Desde os primeiros anos de vida. Estimular os sentidos, promover o contacto com as várias expressões artistas, reforçar o poder da imaginação, todas estas são formas que contribuem para o desenvolvimento de um sentido crítico e da literacia visual. A par deste programa, temos as componentes práticas do desenho, pintura, escultura, que se trabalham, ainda que possam existir pessoas mais virtuosas que outras, digamos. E até aqui cada um faz o seu próprio caminho, em resposta a predisposições interiores ou mesmo desafios externos. É um processo transversal e complexo.

Resgatar memórias, recuperar objetos, mergulhar em sentimentos, são formas de procurar o sentido do mundo?
Absolutamente. Sentido do mundo, da nossa vida, e por tudo o que virá a seguir.

Os rótulos artísticos, do estilo x ou do estilo Y, são uma maneira de encaixar cada um no seu lugar, ou uma forma de gerar ruído?
São essencialmente metodologias de trabalho, que ajudam a analisar e exemplificar alguns factores, quando estamos a falar de um multiplicidade histórica de épocas e estilos. Mas não vale mais do que isso, na minha opinião.


Improváveis - Maio 22, 2018