Opinião

Maria José Oliveira

Professora do Colégio de Lamas.

A questão dos telemóveis na sala de aula

Todos aqueles que, nos últimos anos, foram meus alunos ainda se devem lembrar de como sempre fui contra o uso de telemóveis em sala de aula. O meu inequívoco «não» fundamentava-se numa extensa lista de argumentos. Um deles relacionava-se com o facto de esses aparelhos fomentarem a distração e o alheamento em relação ao que eu considerava verdadeiramente importante. Como poderia eu garantir, numa turma de 28 ou 29 alunos, que, em vez de realizaram a tarefa que lhes pedia, não estariam eles a consultar o Facebook, a utilizar o Twitter ou a atualizar o seu Instagram?

Sendo argumento de peso, nem era esta a razão que mais me levava a repudiar o uso do telemóvel em sala de aula. Na verdade, o que mais me preocupava era o facto de este instrumento poder colocar em causa a minha privacidade e a dos meus alunos. A divulgação de situações degradantes e embaraçosas para professores e alunos e cenas de bullying que iam sendo partilhadas livre e impunemente nas redes sociais davam, precisamente, substância a esse meu receio.

Por estas razões, do conjunto das tecnologias que se podem utilizar em sala de aula, o telemóvel era a única que eu proibia por ser aquela que eu menos conseguia controlar.

Nestes últimos anos, no entanto, temos assistido a uma evolução extraordinária destes pequenos aparelhos. Hoje, já não falamos apenas em telemóveis. Falamos em «smartphones», ferramentas poderosíssimas, com capacidades de processamento, de armazenamento e de gravação que superam as de muitos computadores que ainda temos lá por casa. Acompanhando a vertiginosa evolução destes equipamentos, em 2013, a UNESCO recomendou o seu uso em sala de aula, apresentando um conjunto de motivos para a sua utilização.

“Porém, o problema de fundo subsiste: como criar um ambiente educativo em que os efeitos positivos da utilização do telemóvel se sobreponham aos negativos?”

Face a estes desenvolvimentos, comecei-me a questionar se, para evitar alguns problemas disciplinares com os alunos, não estaria a fechar a minha sala de aula a uma ferramenta com inegáveis potencialidades ao nível da aprendizagem. Em bom rigor, eu já tinha começado a usar o telemóvel para projetar uma apresentação, para lançar um questionário online, para procurar o significado de um termo técnico, para informar um encarregado de educação sobre o desempenho do seu filho. Assim sendo, por que razão não o permitir também aos alunos?

Numa análise muito rápida aos estudos científicos que advogam o uso dos telemóveis em sala de aula, pude constatar que os telemóveis podem e devem ser utilizados como um instrumento de trabalho para fazer pesquisas, para consultar dicionários online, para realizar questionários, para consultar os conteúdos dos próprios manuais, entre outras possibilidades. Deste modo, os alunos são colocados no centro do saber, sendo criadores do seu próprio conhecimento, ganhando espírito crítico e autonomia, algumas das competências definidas pela DGE para o perfil do aluno à saída da escolaridade básica.

Porém, o problema de fundo subsiste: como criar um ambiente educativo em que os efeitos positivos da utilização do telemóvel se sobreponham aos negativos? Em primeiro lugar, creio que devemos conversar com os nossos alunos sobre o que significa para eles «estar atento». Para eles, por exemplo, estar atento pode passar por ouvir música enquanto realizam uma tarefa, o que, para mim, acaba sempre por ser uma distração. Este é um trabalho de metacognição importante na sua aprendizagem e na nossa capacidade de os compreender.

“É necessário incutir nos nossos alunos uma cultura de respeito pela sua imagem, pelo seu direito à privacidade e pelo respeito pela individualidade dos outros”

Em segundo lugar, é fundamental planificar as atividades de aprendizagem em que o telemóvel possa ser um recurso importante para os alunos e para o professor, definindo claramente as aplicações a utilizar e o tempo dessa utilização. Por último, e mais importante, é necessário incutir nos nossos alunos uma cultura de respeito pela sua imagem, pelo seu direito à privacidade e pelo respeito pela individualidade dos outros.

No fundo, perante um novo paradigma de aluno, todos nós, professores, temos de nos reinventar, de desconstruir e de aperfeiçoar práticas que considerávamos certas e imutáveis, de modo a tentar compreender as necessidades e as motivações de jovens que cada vez mais se sentem seduzidos por um progresso tecnológico que, tornando possível o que até há pouco tempo era inimaginável, não raras vezes tende a remeter para um universo de facilitismo e para a promessa aparente de um sucesso imediato. É preciso tirar o devido proveito das novas ferramentas, mas também é preciso apelar à responsabilização, para que, num tempo em que praticamente tudo se vai tornando virtual, a aprendizagem não se torne, também ela, mais virtual do que real.


Opinião - Maio 22, 2018

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