Opinião

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.° Ciclo, escreve, tem 17 livros publicados. Tem um programa de rádio sobre literatura na Rádio Antena Vareira. Promotor de eventos culturais no Museu de Ovar. Criou a editora e livraria Doninha Ternurenta em Ovar.

A espuma cultural II

Fiz recentemente uma viagem à Alemanha e, como em todas as viagens que façamos, é uma boa oportunidade para se verificar as diferenças entre costumes e tradições, porque outras mais facilmente nos apercebemos, desde a barreira da língua à questão económica. Já todos nós conhecemos a Alemanha, mesmo que nunca lá tenhamos estado. O gigante europeu, que domina a esfera financeira do nosso continente, esse grande colosso frio e distante, rodeado de países naquela Europa central, parece, ao mesmo tempo, uma ilha independente, autónoma e estranhamente feliz na sua solidão.

A Alemanha respira cultura por todos os poros. Uma livraria tem uma superfície tão grande quanto a de um supermercado. Há livros e livros e livros em destaque e nas prateleiras. Da mesma forma, atrevo-me a dizer que têm mais de duas centenas de publicações periódicas, de todas as formas e feitios, de todos os temas e para todos os gostos, sublinhe-se, entre jornais e revistas, os preços não variam dos nossos.

A Alemanha é cara? É. Mas não em tudo. E seria um excelente exercício estudar com fundamento aquele nível de vida para evitar comparações desviadas e imprecisas como habitualmente ocorrem. A nossa tendência, ao pisar solo alemão, ou qualquer outro solo, é a de iniciar uma lista de comparações tantas vezes injustas, pois não se pode comparar o que é incomparável. No entanto, se beber um café ou uma cerveja está fora dos nossos padrões, talvez percebermos porque o sistema de saúde alemão abrange 90% da população ajude a concluir que muitas coisas lá não são tão diferentes do que temos cá. Claro que a diferença salarial é um completo abismo (salário mínimo de 1 498,00 euros por mês).

Falamos também de um país que é considerado um dos 10 melhores do mundo em termos de qualidade de vida, sendo também o dono do sexto maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta. Mas sim, é possível ter uma refeição numa grande cidade alemã (no seu restaurante mais popular) abaixo dos preços praticados por cá em Lisboa ou no Porto. Sim, Lisboa e Porto estão na moda, completamente viradas para os turistas, que chegam de bolsos cheios. Os portugueses comuns não podem obviamente acorrer a um restaurante português com estrelas Michelin.

“Qualquer lugar nos parece vazio de presenças ou indiferente aos gestos e às entradas e saídas. Até as crianças são avisadas pela genuína e universal forma de estar”

Voltemos de novo à questão social e cultural. Os alemães são um povo frio, qualquer passo numa rua, compra num supermercado ou entrada num café comprova-o com a maior facilidade. É muito mais natural encontrar o ruído entre os jovens, são rebeldes e têm o sangue mais quente. Mas a norma é fazer o mínimo de ruído no comboio, na livraria ou no restaurante. Qualquer lugar nos parece vazio de presenças ou indiferente aos gestos e às entradas e saídas. Até as crianças são avisadas pela genuína e universal forma de estar. Mas são avisadas na mesma e aprendem a interiorizar aquele comportamento desde aquelas tenras idades.

As cidades estão limpas. Aliás, as cidades estão assustadoramente limpas, como se se ninguém prevaricasse, como se o olhar de reprovação a cada peão que passa a passadeira no vermelho fosse o mesmo perante um acto tão greve quanto a ofensa que se comete perante um outro cidadão. É um padrão cultural, de um país que despoletou duas grandes guerras mundiais. E que não foge ao passado, nem à história. O alemão olha para o passado, e sem que o possa corrigir, observa-o e aprende, para que o terror de outrora não regresse. Há museus a homenagear os museus.

Há monumentos cheios de nomes de judeus, que são nomes alemães. Na verdade, os judeus eram alemães. Foram alemães a chacinar alemães. Por isso, a multiculturalidade existe na Alemanha, sem grande aparato. Quem chega cumpre as regras, integra-se na sociedade, com direito à diferença. Há árabes por todo o lado, talvez mais expansivos, mais sorridentes, mais felizes. Fugir da guerra, da morte, da tortura e da repressão pode não ser suficiente. Mas a Alemanha abriu as portas, enquanto a Hungria as fechava. E vemos árabes por todo o lado. Vemos asiáticos de países mais distantes, Bangladesh, Laos, talvez também do Vietname. Há barbeiros numa avenida enorme. Aparam barba e cabelo, fazem penteados da moda. Não entram mulheres. Não passam mulheres. Os supermercados dos asiáticos estão cheios de espelhos e videovigilância. A indiferença dos alemães contrasta com este receio dos asiáticos. Mas todos convivem em perfeita harmonia. Encontramos agências de viagens com promoções para o Níger, para o Togo e para os Camarões.

“O alemão olha para o passado, e sem que o possa corrigir, observa-o e aprende, para que o terror de outrora não regresse. Há museus a homenagear os museus”

Os alemães não têm horas de refeição. Quando se sentam à mesa é mesmo para beber cerveja. E apreciam vinho. Ora, não são apenas os latinos, surpresa das surpresas, apreciam vinho, e de que maneira. A leveza do comportamento também se nota na estrada, também os carros alinham pelo civismo, raramente se ouve uma buzina, nos museus ninguém conversa, nas feiras tudo está coordenado. Ao domingo, as lojas estão fechadas, mas os espaços de lazer estão lotados. Qualquer nesga de luz é aproveitada, as margens dos rios ganham vida, as margens dos rios são autênticas praias improvisadas, há areia de praia, cadeiras de praia, bares de praia, as crianças brincam descalças, metem as mãos na areia, sujam-se, não há um berro de pai ou de mãe para que tenha cuidado, para que não se suje, para que não brinque, estão em silêncio, sim, num silêncio que segue o curso dos rios até à foz. A hora do almoço (qual hora do almoço?) segue para segundo plano, lê-se um livro, há actividades no museu, cheio por sinal, apanha-se sol na relva, famílias inteiras, num ritual de convívio cheio de boa disposição, com o menor ruído possível.

Há museus em toda a parte e para todas as preferências. Os preços praticados são apelativos e visam os programas em família. É perfeitamente visível a quantidade de eventos culturais programados, até mesmo em cidades mais pequenas. Conseguimos perceber que as pessoas se encontram, que consomem cultura, de todo o tipo, pintura, música, literatura, todas as artes. Existe um investimento político claro no desenvolvimento cultural, na promoção e divulgação dos eventos. As pessoas, desde muito novas, são incentivadas a consumir cultura, a absorver a arte e a reconhecer nela as suas virtudes.

Os espaços verdes estão bem tratados e há ciclovias por toda a parte, dentro e fora das cidades. A bicicleta é um meio de transporte bastante apreciado, assim como os transportes públicas. Na Alemanha tudo funciona, até o civismo, que não falha. Poderia, obviamente dissertar aqui tantas outras situações, mas deixo esta espuma cultural para reflexão.

Sei que ao chegar a Lisboa me soube bem o ambiente. Temos a multiculturalidade, o café e a cerveja mais baratos, assim como o ruído da boa disposição. Somos diferentes, melhores em algumas coisas, piores em outras. Mas sei que ainda temos um longo caminho a percorrer. E achei curioso, em pleno metro de Lisboa, atrás de mim, um grupo de jovens alemães a dar nas vistas, falavam alto e soltavam sonoras gargalhadas. Não deixei de sorrir para mim, pensando no momento de catarse, de pura liberdade, que estavam a ter num país diferente do deles.

 

 


Opinião - Maio 12, 2018

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