A Câmara de Santa Maria da Feira está a desenvolver um novo modelo de ensino profissional com empresas e com o Ministério da Educação, com o objetivo de atenuar o desajustamento entre a oferta formativa das escolas e as necessidades do mercado.
A ideia é chamar as empresas ao processo de ensino profissional e conferir-lhe um carater eminentemente prático, com dois terços da carga horária a ser desenvolvida em contexto laboral e um terço em sala de aula, mais voltada para a componente de formação geral.
O modelo ainda não está fechado, mas vem sendo discutido com várias empresas que já manifestaram interesse em participar no projeto e com o Ministério da Educação, recetivo às chamadas modalidades de ensino “fora da caixa”. Não estará em condições de ser aplicado já no próximo ano letivo, mas o presidente da Câmara da Feira, Emídio Sousa, admite que possa ser uma realidade em 2019/2020.
O vereador socialista Délio Carquejo chama a atenção para o desajustamento entre a oferta formativa proporcionada pelas escolas e as saídas profissionais e defende que o Município deveria olhar para a experiência de Aveiro nesse capítulo, marcada por uma proximidade com as empresas.
Socorrendo-se dos números compara a realidade de Santa Maria da Feira e de concelhos vizinhos de dimensão mais reduzida. São João da Madeira tem 382 alunos e 14 turmas de ensino profissional aprovadas, Espinho tem 338 e outras 14 turmas aprovadas, enquanto Santa Maria da Feira, 1.288 alunos, tem 17 turmas.
A vereadora da Educação, Cristina Tenreiro, faz outra interpretação desses mesmos números, enquadrando-os num ponto de partida diferente, para sublinhar que o número de turmas aprovadas tem vindo a aumentar a cada ano, numa tendência contrária à dos municípios vizinhos.
Admitido desfasamento entre oferta formativa e necessidades das empresas
Independentemente disso, reconhece que continua a haver um desfasamento muito grande entre a oferta que existe nas escolas e as necessidades do mercado, apesar do “trabalho desenvolvido para aumentar a diversidade da oferta formativa e o número de cursos profissionais”.
Não é por acaso que tem sido recorrente ouvir empresários a lamentarem-se que não encontram pessoas com perfil em determinadas áreas para trabalhar e a verem-se na iminência de diminuir a produção. “Estamos a desenvolver iniciativas em duas áreas, por um lado, a aumentar a oferta formativa do ensino profissional nas escolas públicas e privadas, e, por outro, a desenvolver projetos com o envolvimento das empresas, para que essa oferta formativa seja adequada e seja trabalhada em grande parte nos seus espaços”, explica Cristina Tenreiro.
A autarca adianta que há “muitas empresas” em diferentes áreas “muito interessadas” em que essa formação ocorra no seu interior, porque “para elas, é a melhor forma de conseguirem que o formando saia com um perfil adequado às suas necessidades”.
O formato do projeto não está ainda fechado, mas julga que haveria todo o interesse em que as escolas do ensino público e privado participassem, ministrando a componente de formação geral – o Português e uma Língua Estrageira – em sala de aula. A componente prática será da responsabilidade dos formadores e dos chamados “mestres”, que podem ser trabalhadores das empresas parceiras.
Tutela da Educação ao corrente dos planos do Município
A Secretaria de Estado da Educação e as entidades intermédias estão ao corrente das pretensões do Município. “Não íamos avançar sem termos expetativas de que poderia haver acolhimento do nosso projeto”, assinala a vereadora, lembrando que quanto mais diversidade de respostas existirem no País, mais rapidamente se conseguirá minimizar a realidade que hoje existe de falta de profissionais em muitas áreas, desde eletricistas a canalizadores e soldadores.
“Há um conjunto de profissões em que há grande dificuldade em encontrar no mercado e é necessário procurar formas de as tornar mais aliciantes, porque têm saída, mas ainda não fazem parte dos projetos de vida das nossas famílias e dos nossos jovens”, vinca, apontando para a necessidade de explicar às famílias as saídas profissionais que rapidamente colocam no mercado de trabalho e não impedem a continuação dos estudos e a integração nas universidades.
Foto: DR
- Abril 2, 2018
