Opinião

Filipe Moreira

Licenciado em Educação Básica e mestre em Ensino do 1.º e 2.º ciclos do Ensino Básico. Atualmente é doutorando do Programa Doutoral em Multimédia em Educação da Universidade de Aveiro, onde é investigador.

Da hipocrisia à realidade…

No passado dia 8 de março, comemorou-se por todo o país o Dia Internacional da Mulher. Organizaram-se jantares de mulheres, algumas empresas tecnológicas alteraram as suas páginas na internet, outras alteraram o seu logótipo, outras ofereceram massagens às funcionárias e o rol de atividades será apenas limitado pela imaginação do leitor, como certamente se terá apercebido. De tal forma que houve até cadeias de “fast food” que dispensaram todos os homens para que os seus clientes fossem servidos apenas por mulheres (sim, porque o trabalho liberta). Em outros locais são eles que cozinham para elas, com muita alegria, mas só no dia, porque no resto do ano tudo permanece igual.

A coisa é mesmo assim, de tal forma que o essencial do dia 8 passa tantas vezes ao lado do destaque merecido.

Todavia, este ano foram revelados mais dados sobre as diferenças no trabalho entre elas e eles. Estas diferenças passam, por exemplo, por uma discrepância de 17,5% no salário para trabalho igual entre os dois sexos (em Portugal). Passa ainda por se verificar que as crises económico-financeiras afetam mais elas do que eles, assim como a precariedade, o desemprego, o assédio, a violência…

“Houve até cadeias de ‘fast food’ que dispensaram todos os homens para que os seus clientes fossem servidos apenas por mulheres (sim, porque o trabalho liberta)”

A hipocrisia da nossa sociedade reside precisamente no facto de todos saberem desta realidade, de no dia 8 de março todos enaltecerem o trabalho das mulheres na vida e no desenvolvimento da sociedade, mas, na grande generalidade, se limitarem a ações esporádicas de paternalismo demagógico e hipócrita que deturpa a Luta das mulheres pela igualdade.

Esta hipocrisia, acentuada por alturas do 8 de março, cria tanto ruído nos media e nas redes sociais, que chega mesmo a relevar para segundo plano as vozes que trazem ar fresco sobre o atraso que vivemos na igualdade entre os sexos, dificultando a divulgação, esclarecimento e até a luta.

Porém, há muitos milhares que contrariam a tendência e não baixam os braços na Luta pela igualdade, como se verificou este sábado na Manifestação Nacional de Mulheres (que tive o prazer de participar) organizada pelo Movimento Democrático de Mulheres (MDM), que reivindicou igualdade e justiça social entre homens e mulheres. Saliento, a título de curiosidade, o 50.º aniversário do MDM celebrado recentemente.

“A Luta pela igualdade entre sexos é de todos e não apenas das mulheres”

A necessidade de avançar com progressos nesta causa não se pode ficar apenas na legislação, deve passar pelo avanço cultural e civilizacional. Numa altura em que milhões se indignam e inflamam comentários sobre assuntos tão pouco relevantes como seja a roupa de atrizes (como recentemente com Jennifer Laurence) é de estranhar que não o façam com o mesmo vigor quando se sabe que em 2015 estimava-se que a igualdade entre sexos fosse alcançada apenas daí a 170 anos, caso se mantivesse o ritmo no avançar até à igualdade (dados do Fórum Económico Mundial).

A Luta pela igualdade entre sexos é de todos e não apenas das mulheres. Aceitar o atual estado das coisas é aceitar que as nossas mães, companheiras, filhas, ets… sejam vítimas da discriminação e relevadas para um patamar social inferior apenas por serem mulheres. É ser-se hipócrita e renegar aquela que é a fonte que alimenta o cerne de toda a discriminação.


Opinião - Março 12, 2018

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