Disto & Daquilo

“Chama-me pelo teu nome” – O nome do desejo

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***** (em *****)

Crítica de

Sara F. Costa

Escritora

Elio, dezassete anos, filho de pais judeus, professores universitários, parcialmente americanos, franceses e italianos prepara-se para mais um verão de ócio na companhia dos seus livros favoritos no resplandecente sol das praias fluviais do norte de Itália. O que ele não sabe é que a sua rotina está prestes a mudar pela descoberta da sua sexualidade aquando do surgimento na sua vida do atraente investigador de filosofia, Oliver, que vem passar uma temporada na casa de campo da família.

Podemos alegar que é uma fantasia homossexual recorrente. O homem mais velho e mais sábio a orientar com fulgor o ímpeto do seu jovem aprendiz nas artes da paixão, do amor e do prazer. Remota às referências da Grécia antiga onde as esculturas exibiam corpos masculinos em poses que pretendiam provocar o observador na sua lascívia.

Alperce, do latim persicu (pêssego) pelo castelhano albérchigo (alperce) na raiz partilhada por gregos, romanos e árabes, significava “prematuro” e é com esta explicação etimológica que o filme prepara terreno para uma das cenas que mais deu que falar – envolve um pêssego e… quando a virem, vão identificá-la imediatamente.

Sabemos assim à partida que esta é uma história sobre aprendizagem. Contudo, um tipo de aprendizagem cuja visualização não é aconselhada aos corações mais susceptivelmente conservadores. A acompanhar um filme focado na descoberta sexual de um jovem, temos várias cenas semiexplícitas de sexo.

Tudo no filme são referências assumidas pelo realizador em homenagem aos seus realizadores de eleição como Maurice Pialat ou Luchino Visconti.

Mas esta não é só mais uma história de um romance homossexual. Nem as cenas mais explícitas são gratuitas. Se assim fosse, o seu interesse estaria reduzido a um nicho de pessoas. Quando olho à minha volta e no fim do filme vejo todo o tipo de pessoas na sala de cinema a limparem as lágrimas (inclusivamente as minhas) sei que é um filme que toca em assuntos universais como o amor, o desejo e a perda. As dores de crescimento.

Este é um filme em forma de invasão dos sentidos que desliza para dentro da alma (e da líbido) sem esforço. A fotografia de um norte de Itália campestre ajuda a acentuar a faceta bucólica da sensualidade do filme. Tudo no filme são referências assumidas pelo realizador em homenagem aos seus realizadores de eleição como Maurice Pialat ou Luchino Visconti.

As cores, o sabor e as fragrâncias transformam-se numa sinestesia da alma. Apetece-nos uma paixão de verão adolescente. A angústia, a incerteza, a descoberta – o turbilhão de sensações e sentimentos pelos quais todos passamos numa certa fase da nossa vida.

É assim que um filme de um realizador europeu com um elenco praticamente desconhecido e um orçamento limitado alcança a fama de um filme nomeado para os óscares: pela sua inquestionável qualidade.

Foto: DR


Disto & Daquilo - Fevereiro 24, 2018

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