Opinião

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.° Ciclo, escreve, tem 17 livros publicados. Tem um programa de rádio sobre literatura na Rádio Antena Vareira. Promotor de eventos culturais no Museu de Ovar. Criou a editora e livraria Doninha Ternurenta em Ovar.

A espuma cultural I

O meu primeiro artigo para o Diário de Entre o Douro e Vouga poderia incidir num dos muitos temas que me são bastante caros. Escolhi este para primeira participação. Um artigo não chega para a análise pretendida. É, contudo, suficiente como ponto de partida, ainda que superficial pela vastidão do seu significado.

O termo “cultura” é bastante abrangente para que se fique apenas nas primeiras impressões. A cultura de um país encerra todo um passado, mas é a sua perspectiva de futuro que a torna um tema de repercussão na sociedade. Temos, pois, a sua subsistência, por um lado, por outro, a sua desvalorização. Que caminho estamos a tomar na preservação das nossas raízes e na transmissão da nossa identidade? É comum falar-se em identidade num mundo altamente globalizado, onde as questões migratórias estão na ordem do dia, em que a hospitalidade dos povos é posta à prova, quando os receios sociais determinam a defesa acérrima de costumes e tradições.

O mundo altera-se a cada segundo. Não sabemos se as novas gerações saberão preservar as suas raízes. Sabemos que estas marcam a história de um povo e, por conseguinte, toda a sua identidade. Esta primeira reflexão desenvolver-se-á sobre o conceito de cultura em primeira instância. Nos próximos artigos incidirá sobre as questões pertinentes da sua causa pública.

“O mundo altera-se a cada segundo. Não sabemos se as novas gerações saberão preservar as suas raízes. Sabemos que estas marcam a história de um povo e, por conseguinte, toda a sua identidade”

O que entendemos por cultura? A sua definição, embora derivada do latim, abrange uma complexidade de elementos que nascem na individualidade de cada um de nós. O conjunto de todos esses elementos permitem a construção de uma sociedade, nas diversas vertentes do conhecimento ou das artes, dos costumes ou das crenças, entre tantas outras. O termo na Roma antiga adquiria um valor mais específico, relacionado com a agricultura. Podemos assumir que esse comportamento de cultivar, muito valorizado na antiguidade clássica, transbordou para a actualidade como o gesto de semear o conhecimento. Quando falamos nestas sementes, estamos a enfatizar a importância do investimento na cultura (questões óbvias para debater mais à frente), mas mais ainda, estamos a assumir a emergência de cultivar este complexo social, como garantia de futuro.

Portanto, falar de cultura é abordar uma série de valências sociais, filosóficas e antropológicas. É falar de um todo que parte da individualidade de cada membro de uma sociedade para se constituir noutra dimensão, sendo que todos são importantes na transmissão desses valores, ainda que possa cada um ser o complemento do outro, porquanto nunca na posse (por impossibilidade) de captar a imensidão da cultura, e se verifique que se pode abranger numa só pessoa vários interesses culturais. A sociedade deve pugnar pela diversidade cultural e reforçar o direito das minorias às práticas dos seus hábitos culturais. Aqui podemos fazer duas interessantes abordagens, uma sobre as vagas migratórias e o acolhimento nos países de chegada, e outra sobre os grupos minoritários com interesses culturais muito congregados, que não despoletam o interesse de grandes massas.

“A sociedade deve pugnar pela diversidade cultural e reforçar o direito das minorias às práticas dos seus hábitos culturais”

O filósofo francês Gilles Lipovetsky tem analisado as grandes questões culturais dos povos, tentando alertar para a perda de sentido moral nas relações humanas. O seu pensamento sobre a era hipermoderna desenvolve conceitos que se baseiam em lógicas fundamentais: o mercado, a tecnociência e a cultura individualista democrática. A estas lógicas decidiu acrescentar os media e o consumo. O filósofo defende que o futuro se encaminha para a unificação planetária. Temos, pois, um mundo ligado à internet e aos telemóveis, muito mais próximo quanto aos comportamentos das populações.

O que Gilles Lipovetsky analisa pode e deve levar-nos a uma aturada reflexão. Por exemplo, refere que a televisão, pela sua interactividade, em contraponto com a passividade do cinema, ganhou vantagens difíceis de combater. As pessoas estão mais ligadas à televisão, quando era um ritual ir ao cinema nos anos de 1930 ou 1950. Hoje, cada europeu vai duas ou três vezes ao cinema, mas vê muitos filmes em casa. Contudo, na óptica do filósofo o cinema nunca deixou de triunfar, porque influenciou todas as outras áreas. O mundo evolui a cada segundo e cada área cultural se adapta às novas tendências, buscando conteúdos que acompanhem também essa evolução, sob pena de perder terreno. Mas é certo que muitas áreas necessitam de fôlego para sobreviver.

Podemos afirmar que a cultura é bastante importante para um povo, assim como a saúde e a educação. São pilares que asseguram a sobrevivência da sociedade e a sua identidade, como já referido anteriormente. A cultura está perfeitamente ligada à identidade de uma sociedade, sendo interessante abordar também como podemos defini-la, que critérios podemos usar para caracterizar um povo.

“O mundo evolui a cada segundo e cada área cultural se adapta às novas tendências, buscando conteúdos que acompanhem também essa evolução, sob pena de perder terreno”

A definição de cultura pode também ser controversa. Há quem faça a distinção entre cultura e entretenimento. Estivemos a abordar os conceitos de cultura num ambiente mais lato. Neste contexto, devemos diferenciar a cultura do entretenimento, mas obviamente que as práticas culturais podem estar associadas ao lazer. O advento dos formatos imagéticos transformou muitas áreas culturais e moldou-as ao entretenimento. Isto significa que esta formatação foi esvaziando o conceito de criatividade. Muitas vezes são associadas determinadas artes às elites, como se fossem apenas orientadas para pessoas que pretendem consumir cultura para cultivar o espírito. Nada mais errado, todas as pessoas estão capazes de consumir qualquer expressão artística e cultural.

As formas culturais são iguais para todos. Podem não estar todos ao mesmo nível, ou porque não estão formatados, por vários motivos, ou porque simplesmente fazem opções diversificadas. Por norma, damos mais rápida resposta a estímulos sensoriais, mais relacionados com o entretenimento. É mais directo, mais imediato, por resposta emocional que nos permita apenas o relaxamento. Devemos então conceber a cultura como algo que está afastada da esfera do mercado? Se o entretenimento e o lazer são vitais para a sociedade, devemos ou não valorizar a cultura nos seus mais diversos contextos, atendendo a todas as áreas e a todos os públicos? Deve ou não o estado garantir e assegurar as manifestações de cultura, entendendo nela um investimento eficaz para o desenvolvimento da sociedade e preservação de uma identidade? Pode ou não a produção trazer retorno económico, ainda que não deva ser entendida essa a sua principal missão?

“Se o entretenimento e o lazer são vitais para a sociedade, devemos ou não valorizar a cultura nos seus mais diversos contextos, atendendo a todas as áreas e a todos os públicos?”

Se fizermos uma análise aos dados na Pordata (da Fundação Francisco Manuel dos Santos) vamos obter a resposta a muitas destas questões. Fica para um próximo artigo. É importante perceber o que se anda a fazer neste país, percebendo o investimento que foi feito, em comparação com outras áreas (desporto, por exemplo), e se é prioridade pública o apoio à cultura. Temos bastantes condimentos para aflorar este tema nos seus mais variados domínios.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico 

 


Opinião - Fevereiro 24, 2018

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