Disto & Daquilo

A Forma da Água – A quem molha?

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** (em *****)

Sara F. Costa
Escritora

“A Forma da Água” é um conto de fadas para adultos. É um conto de fadas porque replica a ideia básica essencial do conto da bela e o mostro. Encontrar a beleza e a empatia numa criatura que nos é estranha e possivelmente repugnante.

A cinematografia é notável. Os tons esverdeados da água presente nas suas diversas formas que se apresentam ao longo da iconografia da Guerra Fria. A estética Amélie Poulan, uma Sally Hawkins tímida mas inteligente. Muda mas tão igual a toda a gente, com os mesmos desejos – sobretudo os libidinosos.

“A Forma da Água” merece estrelas pela estética cuidada e pelos planos encenados, fotografia cuidada e as representações no ponto. Perde estrelas na inverosimilhança da narrativa, na lamechice do romance que mais parece surgir da solidão do que de um sentimento de empatia profunda, no sexo inter-espécies com um monstro da água? (Era tanto o desespero?).

Não é um mau filme, é só um filme que não acrescenta muito de novo e que na minha ótica não justifica tanta nomeação. Quando um filme é tão amplamente nomeado, tendemos a tentar compreender que realidade sócio-política trouxe esta narrativa em particular para os holofotes da fama. Será o amigo homossexual discriminado? A amiga afro-americana casada com um homem prepotente ou o superior hierárquico e os seus assédios?

Obviamente que o politicamente correto está na ordem do dia. Outra coisa que me parece estar na ordem do dia é começarmos o debate sobre o estranho e assombroso amor que as pessoas estabelecem com os seus animais. O monstro aquático não pode ser mais do que um animal selvagem e é por isso que quando a protagonista se despe para se juntar à banheira da criatura, eu sou aquele telespectador do anfiteatro do andar de baixo a quem lhe cai uma gota na boca e acorda subitamente estarrecido. Já não consigo compreender o nível de solidão de alguém que trata o seu cão por filho, agora compreender que exista desejo sexual por uma criatura porque lhe reconhecemos capacidade de pensar e sentir – mesmo que ocasionalmente coma a cabeça de um gato?

Porque é que a libido da mulher tem que obedecer a critérios de simpatia? Será que no meio de tanto progressismo, a ideia da Bela e o Monstro não é precisamente a de que a mulher, nobre, sente desejo sexual por uma criatura em nada sexualmente apelativa simplesmente porque essa criatura é simpática? Eu lamento mas tolerar a zoofilia não se encontra na minha agenda feminista.

Entre o politicamente correto e o retro-estético ficamo-nos por uma incorreta sobrevalorização da superfície pela essência.

Foto: DR


Disto & Daquilo - Fevereiro 18, 2018

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