Disto & Daquilo

“The Post” – Isto é uma guerra, não uma festa

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Crítica de


Sara F. Costa
Escritora

O debate sobre a liberdade de imprensa é essencial e muito se tem dito sobre o facto de Steven Spielberg ter o talento de saber contar histórias no momento certo. Esta é a altura certa para os Estados Unidos voltarem a refletir sobre a sua liberdade de imprensa. Com um executivo interessado em travar batalhas legais com os órgãos de comunicação que divulgam o que não lhe convém e com um presidente que insiste em ter os seus próprios panfletos nas redes sociais onde a informação não é filtrada, este filme prima pela atualidade. É inevitável o sentimento geral de retrocesso nos valores democráticos.

“The Post” é um filme sobre liberdade de imprensa e sobre a luta que trava. É atual no seu contexto político e é atual no tratamento da fuga de informação em tantos casos contemporâneos como o caso Snowden ou Wikileaks. Mesmo sem envolver tanta tecnologia, a fuga de informação de ficheiros classificados sempre existiu. Ben Bradlee (Tom Hanks) e Katharine Graham (Meryl Streep), editores do The Washington Post, recebem um estudo detalhado sobre o controverso papel dos Estados Unidos na Guerra do Vietname e veem-se confrontados com o dilema de publicar ou não as revelações que provam que a Guerra do Vietname foi um desperdício de vidas e que se manteve ao longo dos sucessivos mandatos presidenciais porque nenhum dos presidentes queria assumir uma derrota durante o seu período governativo.

Deverá a lei proteger os governados ou os seus governantes?
Este é talvez o primeiro tópico do filme, se bem que não é fácil hierarquizar o foco do filme porque acredito que se divide tanto na questão da liberdade de imprensa e da questão essencial do poder como Spielberg foi também muito categórico ao colocar a mensagem feminista muito evidente. O filme acompanha com detalhe a posição em que se encontra a Sra. Graham, a mulher que obteve a direção do The Washington Post apenas depois do seu marido ter falecido, uma vez que o pai dela preferiu dar a direção do jornal ao genro e não à filha.

Do ponto de vista cinematográfico podemos sempre contar com a lamechice típica de Spielberg mas não podemos deixar de nos emocionar com a interpretação de Meryl Streep. A mulher que no meio dos homens tenta afirmar a sua voz, numa época em que, quando à mesa de jantar a conversa virava política externa, as senhoras saiam da mesa porque a política não é tema feminino.

Quem vai ver este filme a pensar que é uma nova versão do All the President’s Men, vai deparar-se com esta mensagem feminista mais delineada, por vezes quase exagerada. A dinâmica de poder e as relações profissionais são também temas relevantes do filme. A forma como os jornalistas socializam com os políticos não deixa de repercutir uma vaga familiaridade em relação aos políticos socializarem com líderes de clubes futebolísticos aqui por terras lusófonas. No caso do cenário relatado no filme, partindo do pressuposto que as festas em casa uns dos outros e os passeios de barco, assim como todas as outras prendas não constituem isoladamente um compromisso para nenhuma das partes, não deixa de levantar várias suspeitas de imparcialidade, sejam reais ou não, é um tipo de relação (promiscuidade?) que não favorece os valores democráticos de isenção e imparcialidade.

O estudo que é publicado foi encomendado por McNamara, o mesmo Secretário de Defesa dos Estados Unidos de 1961 a 1968 durante as presidências de John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson. O mesmo homem que teve um importante papel no envolvimento dos EUA na guerra do Vietname, é o mesmo que pede este estudo. Peso de consciência?

Até que ponto é que colocamos a nossa segurança pessoal em causa pelo bem comum?
Sem dúvida que está é a segunda questão fundamental no filme e na reflexão que proporciona. Katharine Graham precisa de tomar uma decisão extremamente difícil ao publicar no seu jornal esta fuga de informação. Arrisca-se a perder todo o legado empresarial do pai, a sua fortuna pessoal e a sua própria liberdade – com a ameaça de ser presa.

Os homens que a rodeiam querem manter o status quo que possuem e foi necessária muita coragem para contrariar todos os que a rodeavam e que se afirmavam constantemente como os homens do poder e do saber.
No fim, a união dos órgãos de comunicação torna-se mais forte do que o lobby de Nixon mas as guerras, assim como as festas, continuam a acontecer até hoje.

Foto: DR


Disto & Daquilo - Fevereiro 12, 2018

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