Opinião

Susana Cunha Vieira

Psicóloga do Colégio de Lamas

“Mindfulness”, uma prática também ao serviço da educação

“Mindfulness”, conceito que pode ser visto como equivalente à expressão “atenção plena”, corresponde ao estado de uma ampla consciência que um indivíduo poderá desenvolver sobre si próprio e sobre a realidade que o rodeia, condição que, em última instância, pode ser compreendida como uma estratégia de desenvolvimento da metaconsciência. A abordagem “Mindfulness” foi absorvida pela psicologia há já vários anos e acabou por estar na génese do que atualmente se conhece por terapia cognitiva comportamental de terceira geração. Embora tenha começado por ser aplicada apenas em protocolos terapêuticos, ela tem vindo a ser utilizada em contextos educativos e espaços escolares, com excelentes resultados.

A meditação é a prática fundamental do “Mindfulness”, porque, sem ela, não se conseguirá tirar o devido proveito de todos os imensos benefícios da sua abordagem. Antes de mais, tudo deverá começar com a observação da respiração, acionando-se, em seguida, movimentos de inspiração e expiração profunda, para atingirmos um estado de relaxamento que nos conceda a possibilidade de aceder às estruturas subconscientes da mente, num estado de vigília. O objetivo será que todo o corpo, imerso numa serenidade interior, fique sob a atenção e a observação da mente, sendo possível aceitar os estados emocionais e ter melhor perceção das sensações físicas.

“As técnicas ‘Mindfulness’ na sala de aula, especialmente a meditação, permitem desenvolver nos alunos um excelente trabalho de reconhecimento de si e dos outros e contribuem para a autorregulação emocional equilibrada e saudável das emoções”

Em ambiente escolar, numa primeira fase, sem pretender aplicar integralmente toda a dinâmica do “Mindfulness”, podemos começar por nos focar na técnica de meditação e praticá-la regularmente com os alunos, para que estes possam reconhecer a importância dessa prática no seu autoconhecimento e na sua formação pessoal. Os efeitos dessa atividade, entretanto já reconhecidos pela ciência, são imensos e estão claramente associados ao aperfeiçoamento de múltiplos aspetos da natureza humana, como é o caso da diminuição dos níveis de ansiedade, da elevação da concentração e da memorização, da melhoria da qualidade do sono, do aumento do foco na concretização de objetivos e da estimulação da aceitação de si próprio e dos outros.

Com efeito, as técnicas “Mindfulness” na sala de aula, especialmente a meditação, permitem desenvolver nos alunos um excelente trabalho de reconhecimento de si e dos outros e contribuem para a autorregulação emocional equilibrada e saudável das emoções, abrindo uma possibilidade efetiva de exploração assertiva das sensações mais puras. Se pensarmos apenas nas emoções negativas, como o ressentimento ou a raiva, o aluno que pratica “Mindfulness” torna-se mais capaz de as identificar e de as submeter ao olhar da sua consciência.

Este processo de observação da própria emoção, sem a reprimir ou negar a sua presença, faz com que esta, num primeiro momento, se expanda no corpo e, logo de seguida, se dissipe. Enquanto o aluno faz este exercício introspetivo, não é capaz de reagir de forma precipitada, evitando-se, deste modo, comportamentos impulsivos e disruptivos. Sendo um exercício que proporciona uma grande tranquilidade mental e física, não se pode esperar que os resultados surjam de um dia para o outro. Na verdade, esse é um trabalho que, implicando treino, persistência e autocontrolo, se vai apurando à medida que a criança ou adolescente vai crescendo e se vai desenvolvendo.

Um dos princípios do “Mindfulness” é permitir claramente que a atenção do sujeito se desloque para o próprio processo de autoconhecimento e que o enfoque esteja no presente, isto é, no próprio processo e não no resultado final. Este princípio faz parte de uma educação integral que tem em atenção a forma como as inteligências múltiplas se desdobram na dimensão corporal, emocional, mental, social, estética, ecológica e espiritual.

“Se pensarmos apenas nas emoções negativas, como o ressentimento ou a raiva, o aluno que pratica ‘mindfulness’ torna-se mais capaz de as identificar e de as submeter ao olhar da sua consciência”

Numa abordagem mais holística, podemos ir alargando o âmbito do “Mindfulness” de modo a torná-lo uma atitude constante e a colocá-lo em prática nos mais diferentes momentos do dia a dia. Para que seja uma realidade cada vez mais presente nas nossas vidas, teremos de aprender e interiorizar sete conceitos essenciais que correspondem às suas sete atitudes fundamentais: o não julgamento, a paciência, a mente principiante, a confiança, o não esforço, a aceitação e o deixar ir. Não será aqui desenvolvido o significado de cada uma destas atitudes, pois o nosso objetivo é, acima de tudo, realçar e destacar a importância da simples técnica de meditação, que, no fundo, está ao alcance de todos nós.


Opinião - Fevereiro 11, 2018

pub

Mais Opiniões

A espuma educativa II

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.º Ciclo, escritor

A espuma educativa I

Carlos Nuno Granja

Professor do 1.º Ciclo, escritor