Opinião

Artur Duarte

Licenciado em Economia. Foi administrador não-executivo da AEP – Associação Empresarial de Portugal e diretor da APPICAPS – Associação Portuguesa Indústria Calçado. Fundador da ADO Basquetebol SAD.


Teatrinho tugalês

Levante-se o pano….
Ao lado direito num gabinete amplo, o ambiente é de grande azáfama, papeis para aqui, papeis para lá, computador, discos rígidos, discos moles, mochilas, chaves de parafuso, de bocas para cá, bocas para lá, fotocópias, digitalizadores, o caos instalado. Os figurantes movimentam-se apressados e soltam uns sons imperceptíveis, mas condizentes com quem está muito compenetrado no que se está a fazer. Ao lado de câmaras na mão e microfones em riste, lá estavam os jornaleiros do “Voyeur”, do Sebado, do Carteiro Matinal e do Isso, que captavam tudo o que se passava no palco e levavam a “informação” em directo para fora do teatro.
Ao lado esquerdo temos o gabinete do Ministro do Tesoiro, uma secretária, mesa de reuniões e uma mesinha para servir o café ao Dr. Sentino e convidados, no chão jaz um PC, não o que pensais mentes perversas! Não é uma fotografia do Dr. Punhal, mas sim um “Personal Computer”, já esventrado depois da intervenção dos buscadores da Judite e do Mistério Púdico.

ACTO I
Cena I
Entra o Dr. Sentino, completamente assarapantado, na face transparecia um riso apalermado decorrente da incredulidade pela confusão instalada, atrás entra o Sr. Pró Cura a Dor, de pasta à James Bunda na mão, chapéu de feltro, “made in” São João do Pau, e uma samarra coçada, com uma gola de pele de raposa, que lhe havia sido oferecida pelo seu conterrâneo, Manel da Venda, em paga de uns favorezitos do colega doutor.

SENTINO – Mas afinal que aparato é este?

PRÓ CURA A DOR – Estamos a “imbexetigar” umas irregularidades de Vossa Excelência… respondeu com um carregado sotaque beirão o Dr. PRÓ CURA A DOR.

SENTINIO – Mas a que irregularidades se referem os senhores?

PRÓ CURA A DOR – Segundo uma “imbexetigação” do “Voyeur” e do Carteiro Matinal, que deve saber, mantem uma parceria com a nossa companhia, sob a iluminada direcção da Joaninha dos Traques Vitais, o senhor gosta de ir à bola?…

SENTINO – Gosto… e isso é crime?

PRÓ CURA A DOR – Aqui senhor Sentino quem faz as perguntas sou eu! – afirmou rispidamente o sr. Dr. Pró Cura a Dor, e além de gostar de ir à bola, é dos vermelhos?

SENTINO – De facto o meu clube é o Glorioso, que equipa de encarnado… e isso tem algum mal?

PRÓ CURA A DOR – Nos dias que correm, tem inconvenientes, não é lá muito bem visto, e se não é do Suportem nem do Torto, nas funções que ocupa, o senhor Sentino devia dizer-se fan da Acadaqueca, agora do glorioso “jámé”! A Joaninha é como os toiros, embirra com o vermelho… Mas deixemo-nos de treta, é ou não verdade, que o senhor pediu dois bilhetes ao Biqueira, para ver de trono um jogo do Glorioso, e ainda por cima contra o FÊ Quê TÊ?

SENTINO – É verdade, e… não posso? Lá por ser ministro tenho de deixar de ir à bola?

PRÓ CURA A DOR – Devia, mas se quer manter o vício, faça como os outros e compre o bilhetinho, com sorte ainda o colocavam na jaula, à beira dos macacos…

SENTINO – Mas eu sou ministro, tenho de preservar a minha segurança. Se fosse para onde diz, ainda me desfaziam, e lá se ia o presidente Euromoedas…

PRÓ CURA A DOR – E…? Perdia-se alguma coisa? Essa de legitimar o governo ilegítimo do Sr. Tostas, com a sua ida para Bruxedas, é um crime de lesa pátria, pelo menos foi o que me disseram no “Voyeur”.

SENTINO – Mas esse é um cargo de prestígio que pode sair conspurcado com a lama com que os senhores me pretendem atingir…

PRÓ CURA A DOR – Que peninha…, mas a coisa não fica por aqui, diga-me lá o que fez para ir ver o “match”?

SENTINO – Nada, ou por outra, pedi a um funcionário que telefonasse para o Glorioso, a solicitar os bilhetes, só isso.

PRÓ CURA A DOR – E o cavalheiro está a fazer de mim burro ou parvo? Olhe que fico chateado com a sua sonsaria…

SENTINO – Isto é o fim, em que é que me meti? Não me chegam as bocas dos sobrinhos do Donald (Huguinho e Luisinho), vem este senhor chamar-me sonso, não assim não dá para continuar…

PRÓ CURA A DOR – Isso é que é falar… vá-se embora homem, fazia-nos um grande favor. Assim teríamos hipóteses de vermos a Sonsinha como primeira ministra, a Maia portuguesa, e muito mais jeitosa!

SENTINO – E quem me substituiria? O Professor Doutor Engenheiro Miquelino Trevas, ou a Lulu Alvo Queca? Que pesadelo!

PRÓ CURA A DOR – Qualquer um seria melhor para a pátria, a família e o Estado! E por falar em Estado, é verdade ou não que para ir ver o jogo ao Estádio do Lampião, o senhor teve de fazer um grande favor ao Liso Biqueira?

SENTINO – Eu… por amor de Deus! Só se foi o prazer da minha companhia…

PRÓ CURA A DOR – Gozão… saiu-me melhor que a encomenda! Pois fique sabendo que de acordo com as nossas fontes, esses bilhetes custaram uns largos milhões ao Estado. E creia que as nossas fontes não erram e dificilmente têm dúvidas, estamos certos que em face dos indícios de favorecimento aos Biqueiras, o Liso e o seu filho Ti Alho, o mínimo que lhe podemos desejar é que se demita de imediato de todas as funções que ocupa, e que procure emprego, se o encontrar, no estrangeiro, como muito bem aconselhava o primeiro emérito…
Sentino queria responder, mas em face do ridículo da acusação ficou apalermado e sem resposta…, pelo que o PRÓ

CURA A DOR, continuou…

PRÓ CURA A DOR – E fique sabendo, o novel deputado Nano Belo, já está a mexer os cordelinhos para que o Partido dos Povos, agende o debate do caso em Estraburro, de forma a calçarem-lhes uns patins, para o porem a andar da presidência da Euromoedas.

SENTINO – Mas eu não sei andar de patins…

PRÓ CURA A DOR – Ainda bem… é de forma que a queda é mais rápida! E voltando-se para os “Inbexetigadores”, gritou:

PRÓ CURA A DOR – Então, já descobriram alguma coisa?

VOZ – Ainda não chefe, o tesouro deve estar bem guardado, mas descanse, vamos descobrir…

JORNALEIRO – E podemos dar a informação que os elementos recolhidos indiciam a prática do crime?

PRÓ CURA A DOR – Se não referirem o meu nome, acho que sim. Citem as fontes, pois essas não se chateiam com a verdade… disse a sorrir o PRÓ CURA A DOR.
Vê-se o Sentino, assarapantado, a correr e a sair da cena, enquanto o pano baixa
FIM DO PRIMEIRO ACTO

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico. 

 


Opinião - Fevereiro 6, 2018

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