Diálogos Improváveis

Sara F. Costa: “O movimento do mundo tem pouca lógica narrativa”

Licenciada em Línguas e Culturas Orientais e mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês. Investigadora de Relações Internacionais e professora de mandarim e de português. Tem quatro livros de poesia publicados e vários prémios nacionais.

pub

O que é isso do movimento impróprio do mundo (título de um livro que escreveu)?
O movimento do mundo tem pouca lógica narrativa. É um movimento impróprio do qual nos queremos apropriar. É um movimento impróprio porque nos desafia constantemente, não está dentro de moldes ou parâmetros seguros.

O mundo anda a melhorar, a piorar, ou continua assim-assim?
Devemos sempre trabalhar para que o mundo esteja a melhorar mas o mundo atravessa graves problemas. Há graves problemas ambientais e ideológicos. Há pobreza e guerra. O que é importante é saber o máximo possível sobre o mundo: onde estamos e o que se passa à nossa volta, como podemos interagir com a realidade política, económica, artística ou cientifica? Está ao nosso alcance questionarmo-nos e temos imensa informação disponível.

Escrever é um ato solitário, uma maneira de conversar com o universo, a forma de arrancar pensamentos da alma?
É uma forma de aceitação da solidão com a possibilidade de comunicar com o outro em planos de diálogo que só a dimensão poética alcança.

Os livros tornaram-se uma peça de museu ou têm muito futuro pela frente?
Para mim os livros são insubstituíveis. São uma materialidade necessária. Acho que vão sempre existir a par dos suportes digitais porque são um objeto. Acho que o ser humano gosta de se apropriar fisicamente de ideias imateriais.

Prosa, poesia, ficção, romance, contos. Há um género que grita mais alto?
No género literário, eu escrevo poesia. Mas gosto de escrever também crítica literária ou de cinema. Também escrevo artigos académicos por força da profissão.

“Para mim os livros são insubstituíveis. São uma materialidade necessária. Acho que vão sempre existir a par dos suportes digitais porque são um objeto”

As novas tecnologias são inimigas ou aliadas da literatura?
Tenho uma visão muito progressista nessa matéria. As novas tecnologias são parte do nosso estado evolutivo. São marcos muito interessantes de análise sociológica. Temos muito boa ficção em literatura e cinema que reflete sobre o impacto das novas tecnologias em sociedades utópicas e distópicas. É um tema muito recorrente porque é um tema muito interessante. Por outro lado, o acesso à informação nunca foi tão vasto como é hoje. O mundo está mais unido, o tempo e o espaço diminuíram muito e isso só é possível graças às novas tecnologias.

“Bungaku”, o nome do clube de literatura japonesa que coordena, tem algum significado? O que faz este clube?
“Bungaku” significa “literatura” em japonês. Trata-se de um grupo de pessoas que contribuem com artigos para o blog online e que escrevem sobre um autor ou obra de um autor japonês.

“É importante que a globalização não se limite a uma globalização económica, mas que traga consigo, pelo menos, uma globalização cultural”

Estudar na China abre novas perspetivas do mundo?
Claro, abre imensas perspetivas. Devemos descentralizarmos. A nossa tradição intelectual é muito etnocêntrica. É importante que a globalização não se limite a uma globalização económica, mas que traga consigo, pelo menos, uma globalização cultural.

Um doutoramento em relações internacionais sobre as relações entre a China e a Europa é uma forma de olhar de outra perspetiva para o que aproxima e o que separa o velho continente do mundo oriental?
Neste momento a minha tese centra-se na análise das relações sobretudo económicas entra a União Europeia e a China no sentido de compreender qual a estratégia chinesa na Europa. Facilmente compreendemos que existe uma ambição hegemónica da República Popular da China e uma estratégia bem delineada mas será que a Europa está pronta para a China? É uma das perguntas às quais tento responder.

Ganhar prémios literários mostra que o bichinho da escrita tem de continuar ativo?
Sim, às vezes é até responsabilizador. Se me reconhecem a qualidade literária, sinto quase que isso faz com que tenha um compromisso com a escrita que não posso abandonar. Acho que nunca conseguiria, permita-me ser lírica por uns momentos, mas acho que já se nasce poeta, é uma força interior e espiritual que simplesmente está presente e que se manifesta.

Foto: Mário Pires


Improváveis - Fevereiro 4, 2018